30 Perguntas - chave sobre o Sínodo da Família

 

1. Qual é o verdadeiro desafio da família cristã na atualidade?

 

2. O que é uma revolução sexual?

 

3. O que é o pansexualismo? Como pode a Igreja responder ao mesmo?

 

4. A que chamamos sujeito emotivo? Porque motivo o sujeito emotivo tem tantas dificuldades no seu matrimónio?

 

5. Até que ponto é um problema pastoral que os casais se casem com personalidade adolescente e um amor romântico? 

 

6. Porque o amor romântico é contrário ao matrimónio?

 

Acompanhamos durante todo o mês de Setembro a preparação do Sínodo da Família. Propomos a leitura do artigo "30 Perguntas sobre o Sínodo da Família" da autoria de Juan Perez Soba e Stephan Kampowski, publicados no site do Instituto João Paulo II de Madrid no passado mês de Junho. Uma reflexão notável sobre grandes questões que afetam a família cristã. Desafios, lutas, atentados, erros e falsas profecias que colocam a família na mira de uma condenação social e cultural. Ao mesmo tempo, a família continua a ser a instituição mais valorizada, tal como ensina a Igreja. Os cristãos sabem bem o valor inquestionável da família, por isso defendê-la é um propósito que deve animar a todos na oração e na evangelização concreta das múltiplas realidades em que a família se movimenta: escola, trabalho, lazer, cultura; e também das realidade onde se desenvolve e progride: sexualidade, afetos, partilha, convivência, etc.

Na primeira semana de Setembro propomos a reflexão das primeiras 6 perguntas subordinadas ao tema "A Cultura Pansexualista".

Leia o artigo completo aqui.

 

O desafio da cultura pansexualista

1. Qual é o verdadeiro desafio da família cristã na atualidade?

 

Na atualidade, o maior desafio da família cristã é de ordem cultural. É devido à revolução sexual dos anos 60 do século passado que, ao mudar o modo de entender a sexualidade, introduziu uma ideologia que debilita a compreensão da família ao compará-la com outros supostos modelos familiares e dificulta, nas pessoas, o viver de verdade aquilo que o seu coração deseja: uma família verdadeira.

Isto torna-se uma evidência nos dados sociológicos que mostram que a família, tal como ensina a Igreja, é na opinião de muitos a instituição mais valorizada em muitos países enquanto que culturalmente é combatida. Sem dúvida, esta é a grande questão à qual a Igreja na sua evangelização deve responder sobre pena de produzir um curto-circuito entre o que diz e o que as pessoas compreendem e vivem. É evidente uma correlação entre crise na família e enfraquecimento da fé.

 

2.  O que é uma revolução sexual?

Quantas existiram ao longo da história?

 

Uma revolução sexual é uma mudança cultural radical no modo de compreender as relações entre o homem e a mulher, nos significados fundamentais da diferença sexual, no que se refere à união de amor e procriação.

Se nos referimos à época do cristianismo, a primeira delas foi a revolução sexual e cultural do helenismo, com que se deparou a primeira Igreja. Depois, temos de mencionar a do século XII, com a mudança da Alta para a Baixa Idade Média e o influxo gnóstico dos cátaros e albigenses, que deu lugar ao amor cortês que era sempre adultero. No início do Renascimento surge a exaltação de certos costumes pagãos de uma sexualidade sem transcendência. O Iluminismo deu lugar a um libertinismo de carácter cínico que teve um influxo ampliado que fez com que o movimento romântico fizesse uma crítica muito forte ao matrimónio como “prisão do amor”. No século XX, a primeira revolução sexual foi, junto com aquela que se deu na União Soviética pela ampliação de um comunismo que considerava a família uma invenção burguesa, a dos anos 20 nos países ocidentais, que propunha uma separação ideológica entre o corpo, que considera algo biológico sem mais significado, e o pessoal, que pode impor ao corpo qualquer significado.

A revolução sexual dos anos 60 do século XX, deu lugar a uma cultura pansexualista que é a atual.

 

3. O que é o pansexualismo?

Como pode a Igreja responder ao mesmo?

 

O pansexualismo é um modo ideológico de compreender a sexualidade que se estende culturalmente e que impregna a nossa sociedade. A sua proposta é simples: primeiro, reduzir a sexualidade a sexo, isto é à excitação sexual sem mais significado; segundo, introduzir a sexualidade numa sociedade de consumo, de modo a comercializá-la a todos os níveis. E terceiro, considerar positiva esta realidade, como um progresso social que liberta as pessoas.

Tudo muda quando consideramos a sexualidade numa dimensão pessoal por meio da qual as pessoas se comunicam e estabelecem relações firmes. Não se pode fazer comércio com as pessoas, nem tão pouco com afetos. A Igreja terá de saber oferecer o Evangelho do matrimónio e da família como uma profunda verdade do homem, uma “antropologia adequada” como a chamava S. João Paulo II, “o Papa da Família”, nas suas Catequeses sobre o Amor Humano. Nelas é-nos oferecida uma linguagem e um caminho claro de superação do pansexualismo.

 

4. A que chamamos sujeito emotivo?

Porque o sujeito emotivo tem tantas dificuldades no seu matrimónio??

 

O emotivismo é uma forma inadequada de compreender a entidade do sujeito pessoal. Quem é emotivo identifica-se de tal modo com a emoção que sente que valoriza a moralidade das ações segundo a emoção que esta lhe desperta. Um acto é bom se “o sinto bom”, é mau se “o sinto mau”. É um tipo de relativismo radical  que impregnou a consciência como já havia observado profeticamente Newman. O emotivista nega qualquer tipo de razão objetiva que possa guiar a pessoa nos seus juízos morais. Sobretudo, encerra o homem no brevidade de emoções que mudam, colidem umas com as outras, se contradizem entre si, etc.

O emotivismo se transmite na atualidade pelo sistema educativo, que não educa para os afetos, por imposição de uma falsa ideia de autonomia, deixa a pessoa encerrada nas suas emoções como único critério de vida.

O emotivista tem uma grande dificuldade em pensar a vida como um todo, porque a emoção falsifica o tempo, que se vê sempre como um inimigo, e o espaço, já que fragmenta a pessoa nos distintos âmbitos vitais. Uma pessoa emotivista é diferente em sua casa, no seu trabalho, no seu tempo livre, com seus amigos, etc. Além do mais, o puro emotivismo impede a aprendizagem das próprias experiências pois as julga simplesmente como positivas ou negativas sem perceber o seu significado. Produz-se assim, o que se denomina “analfabetismo afetivo” que nos impede de compreender o que os afetos nos transmitem para a construção da nossa história.

É uma autentica doença da personalidade humana que temos de curar para poder enfrentar adequadamente o matrimónio. Torna-se evidente a necessidade de uma educação afetiva verdadeira que permita às pessoas integrar num caminho de amor as suas emoções e sentimentos com toda a positividade que possuem, por forma a encontrarem canal comum para os vínculos pessoais que estabelecem. Na tradição da Igreja, alguns autores valorizaram muito positivamente os afetos como linguagem de Deus e disso dão testemunho com uma grande riqueza de sabedoria humana e divina neste campo.

 

 5. Até que ponto é um problema pastoral que os casais se casem

com personalidade adolescente e um amor romântico? 

 

A realidade do sujeito emotivo é a causa da duração excessiva da adolescência na nossa sociedade ocidental. Chegámos ao ponto das pessoas chegarem ao matrimónio com uma mentalidade adolescente que não faz caso das verdadeiras dificuldades de uma vida comum.

Esta fragilidade agrava-se por uma interpretação romântica do amor entre o homem e a mulher que os impede de ver a fonte verdadeira do amor esponsal.

A conjugação destas duas realidades fragiliza a construção de uma vida em comum segundo o plano de Deus. Constroem sua vida conjugal na areia e ficam expostos a circunstâncias externas que em muitas ocasiões são contrárias.

Superar estas carências é uma tarefa que requer seguimento pastoral, não basta um cursinho de preparação. Quando isto não se dá o que a Igreja terá de oferecer é um acompanhamento posterior nos problemas, sabendo que aos casais atuais  lhes custa muito pedir ajuda. Faz-nos pensar como tantos matrimónios veem a Igreja alheia aos seus problemas reais, precisamente quando pastoralmente é mais urgente enfrentá-los.

 

6. Porque o amor romântico é contrário ao matrimónio?

 

O amor romântico surgiu como resposta cultural a um racionalismo que ignorava os afetos, por isso aparece como uma explosão afetiva e racional. Por isso, o amor é considerado meramente espontâneo, fora de toda a obrigação e pensa-se que a verdade do amor se mede apenas pela sua intensidade. Quando isto ocorre o tempo converte-se num inimigo do amor, parece que o desgasta internamente, persegue-o até acabar com ele. Por último, o amor romântico é intimista, encerra-se no imediato da relação do casal e é refratário a qualquer ajuda externa.

O matrimónio como instituição e realidade social vê-se, então, como contrário ao amor, pois encerra-o em obrigações formuladas em normas jurídicas positivas.

O cristianismo crê, ao contrário, que o amor é um acto de liberdade que implica toda a pessoa e que a sua verdade está no bem que promete, não na intensidade com que o sente. Por isso mesmo, a fórmula de consentimento do matrimónio é uma promessa. O vínculo matrimonial, por conseguinte, gera-se no intercâmbio de promessas na medidas em que estas remetem a uma autoridade maior, o próprio Deus. Por isso, o tempo ajuda a ver que a fonte do amor dos esposos reside num Amor maior que os precede, é este que lhes dá a rocha firme onde construir uma relação firme, sustentada pelo dom divino.