30 Perguntas chave sobre os Sínodos da Família

 

7. Em que se distingue a misericórdia da compaixão?

 

8. Porque temos de distinguir misericórdia e tolerância?

 

9. Que significa dizer que a misericórdia é “a justiça suprema” como afirma de S. Tomás de Aquino?

 

10. É adequado à pastoral da misericórdia procurar exceções à lei moral?

 

11. O perdão e a misericórdia podem ser negados a alguém em alguma circunstância?

 

Acompanhamos durante todo o mês de Setembro a preparação do Sínodo da Família. Propomos a leitura do artigo "30 Perguntas sobre o Sínodo da Família" da autoria de Juan Perez Soba e Stephan Kampowski, publicados no site do Instituto João Paulo II de Madrid no passado mês de Junho. Uma reflexão notável sobre grandes questões que afetam a família cristã. Desafios, lutas, atentados, erros e falsas profecias que colocam a família na mira de uma condenação social e cultural. Ao mesmo tempo, a família continua a ser a instituição mais valorizada, tal como ensina a Igreja. Os cristãos sabem bem o valor inquestionável da família, por isso defendê-la é um propósito que deve animar a todos na oração e na evangelização concreta das múltiplas realidades em que a família se movimenta: escola, trabalho, lazer, cultura; e também das realidade onde se desenvolve e progride: sexualidade, afetos, partilha, convivência, etc.

 

Na segunda semana de Setembro propomos a reflexão das perguntas 7 a 11 subordinadas ao tema "A Misericórdia a e Pastoral da Família". Um tema certamente pertinente para aqueles que desejam acompanhar o Papa Francisco no Ano da Misericórdia.

  

Leia o artigo completo aqui.

 

 7. Em que se distingue a misericórdia da compaixão?

 

A misericórdia é o maior dos atributos divinos, porque nos fala do íntimo de Deus. Só podemos aceder ao seu verdadeiro significado por intermédio da revelação que Deus realizou ao homem ao longo da história.

Nela, o atributo da misericórdia surge como fidelidade à aliança, apesar da infidelidade do homem. Nesta revelação o maior mal do homem é viver fora da Aliança e regressar a ela é o conteúdo real da salvação que Deus promete ao crente.

A compaixão, ao contrário, indica a reação afetiva que nos permite sair dos nossos próprios afetos para entendermos os de outra pessoa, o que é especialmente importante no que se refere ao sofrimento, na dimensão humana.

A misericórdia supera em muito a mera compaixão, pois mostra o mais profundo da omnipotência divina e ensina que Deus é capaz de vencer toda a miséria humana, principalmente no que toca ao pecado e à morte.

 

8. Porque temos de distinguir misericórdia e tolerância?

 

A tolerância nasce da dificuldade de conviver com o mal. Temos de tolerar alguns males, para perseverar na busca do bem, pois de outro modo a experiência ensina que acontecem males maiores.

A misericórdia, pelo contrário não fala em tolerância com o mal, mas de vitória sobre o mesmo.

É certo que o amor por uma pessoa é o que nos faz tolerar alguns dos seus defeitos, mas sempre com o desejo de que os supere, pois queremos para ela o bem máximo. A misericórdia, ao contrário da mera tolerância, o que faz é perdoar o mal, isto é oferece um amor que supera a ofensa e permite a reconciliação.

Surge assim, uma diferença fundamental: um deus apenas tolerante seria aquele que não se deixaria afetar, nem se importaria com as nossas ofensas porque está muito longe do nosso pequeno mundo. Um Deus misericordioso é aquele que se reconhece ofendido pelos nossos atos e quer curar-nos do mal causado por estarmos separados da Aliança com Ele. É um Deus surpreendentemente próximo que vence qualquer compromisso com o mal.

Num mundo como o nosso, radicalmente individualista, em que apenas o respeito se propõe como norma suprema da relação humana, a confusão entre misericórdia e tolerância é uma tentação frequente e uma falsificação do próprio significado de misericórdia.

 

9. Que significa dizer que a misericórdia é “a justiça suprema”

como afirma de S. Tomás de Aquino?

 

Significa que Deus nunca se esquece da justiça e que é Ele o garante da justiça entre os homens. Portanto, não existe nenhuma misericórdia injusta, que ofenda a justiça, porque isso prejudicaria a dignidade humana.

A justiça é tão importante que na Bíblia alcança um valor transcendente, o que significa viver segundo a vontade de Deus, “ajustar-se” à Sua vontade.Isto abre-nos a uma medida maior do que a justiça humana, pois nasce do profundo amor de Deus e pode atuar onde a justiça só por si seria incapaz, isto é pode reparar plenamente a ofensa produzida e reconciliar o pecador.

Por isso, enquanto o sangue de Abel clama por justiça, o sangue de Cristo concede misericórdia e cumpre de modo excelente o pedido de Abel (cf. Hb 12,24)

Não há maior falsificação da misericórdia do que a que se atribui ao direito inexistente de atuar contra a justiça, ainda que movido pela compaixão.

  

10. É adequado à pastoral da misericórdia procurar exceções à lei moral?

 

Buscar exceções a uma lei moral é, em si mesmo, uma distorção da misericórdia e uma falta de compreensão da lei no seu sentido moral, por confundi-la com a lei positiva humana. Isto deve-se a um legalismo que só vê na lei a imposição da vontade do legislador e que, por esse motivo, poderia interpretar-se de modos distintos e conceber que está aberta a exceções pontuais.

É a posição de Ockham: “É bom porque é permitido; é mau porque é proibido” (bonum quia iussum, malum quia prohibitum). Mas a lei, na realidade, é a expressão de uma verdade do bem que guia as nossas ações para a união com Deus. Como afirmava S. Tomás de Aquino: “É permitido porque é bom; é proibido porque é mau” (iussum quia bonum, prohibitum quia malum). Por isto, não existem exceções a esta verdade, simplesmente se pode esclarecer mais profundamente o seu significado.

A misericórdia, em si mesma, é “maior que qualquer lei, porque existe sempre a possibilidade de um bem maior que não pode nunca ser mandado, mas também nunca pode ser entendido como recurso para ir contra a lei, isto é, para escusar-se de um mal.

Daqui se compreende que a lógica da misericórdia seja sempre a de vencer o mal e não encobri-lo ou considerá-lo menos importante.

O poder humano que impõe leis reserva-se na possibilidade de restringir o alcance do seu mandato para mostrar a sua benevolência, com isto, mostra a sua imperfeição, que não tem em conta todos os casos particulares. Ao contrário, o poder divino usa a misericórdia para tornar o homem capaz do bem contido nos Seus mandamentos. Em muitos casos, fora da sua condição de serviço, a piedade da autoridade humana tende a exaltar-se a si mesma; Deus, por sua vez, exalta o humilde ao tornar justo o pecador.

  

11. O perdão e a misericórdia podem ser negados a alguém em alguma circunstância?

 

No ensinamento que Jesus Cristo faz da misericórdia, como se vê especialmente na parábola do Bom Samaritano, esta é universal e ativa, pois contém em si o imperativo “Faz tu mesmo”.

Ninguém está excluído do dom da misericórdia “que enche a terra” (Sl 33,5), nem do oferecimento conseguinte do perdão. É um dom divino que tem de ser oferecido sempre (Mt 18,22), incluindo aos inimigos (Mt 5,44), pelo que não podemos aplicar-lhe um limite humano.

Por serem dons divinos, a misericórdia e o perdão são recebidos pelo homem e é aqui que podem encontrar uma objeção humana que os torne impossíveis por alguma razão.

É impossível que receba o perdão quem não está verdadeiramente arrependido da sua falta, pois isso implica um reconhecimento interior do pecado. Igualmente, a misericórdia não chega a ser recebida de verdade quando não se vence o mal, quando não se produz a conversão de alguém a quem a misericórdia é oferecida.

Nestes casos, ainda que pareça que se nega o perdão ou a misericórdia a uma pessoa, na verdade o que acontece é que a própria pessoa se torna incapaz de a receber.