30 Perguntas chave sobre os Sínodos da Família

 

12. Porque não se pode dar a absolvição a um divorciado que voltou a casar-se e sim aos demais pecadores? Não é uma discriminação?

 

13. Se a misericórdia é o princípio de toda a pastoral, porquê limitá-la com leis da Igreja?

 

14. Se a misericórdia consiste em curar as feridas das pessoas, porque não aplica-la aos divorciados?

  

Acompanhamos durante todo o mês de Setembro a preparação do Sínodo da Família. Propomos a leitura do artigo "30 Perguntas sobre o Sínodo da Família" da autoria de Juan Perez Soba e Stephan Kampowski, publicados no site do Instituto João Paulo II de Madrid no passado mês de Junho. Uma reflexão notável sobre grandes questões que afetam a família cristã. Desafios, lutas, atentados, erros e falsas profecias que colocam a família na mira de uma condenação social e cultural. Ao mesmo tempo, a família continua a ser a instituição mais valorizada, tal como ensina a Igreja. Os cristãos sabem bem o valor inquestionável da família, por isso defendê-la é um propósito que deve animar a todos na oração e na evangelização concreta das múltiplas realidades em que a família se movimenta: escola, trabalho, lazer, cultura; e também das realidade onde se desenvolve e progride: sexualidade, afetos, partilha, convivência, etc.

 

Na terceira semana de Setembro propomos a reflexão das perguntas 12 a 14 subordinadas ao tema "Divorciados «casados civilmente» ou que vivem em situação de uma nova convivência". Um tema bastante atual que muita confusão aporta mesmo aos cristãos mais atentos. Vale a pena ler as respostas deste artigo e nelas buscar o entendimento da Igreja, não do mundo.

Leia o artigo completo aqui.

 

 

12. Porque não se pode dar a absolvição a um divorciado que voltou a casar-se e sim aos demais pecadores? Não é uma discriminação?

 

É um exemplo do que dissemos anteriormente, nunca se pode dar a absolvição a um pecador que não está arrependido. O arrependimento verdadeiro não é um simples sentimento de pena pelo que sucedeu ou pelas consequências produzidas, mas é uma rejeição da ação pecaminosa de forma a que deixa de ser própria.

Assim, o sacramento da penitência exige sempre uma verdadeira conversão: a aversão ao pecado e a união a Deus.

O pecado que pratica um divorciado ao unir-se sexualmente a outra pessoa que não o seu cônjuge é o adultério, assim o qualifica Jesus Cristo no Evangelho (Mt.19,9) e assim o confirma S. Paulo aos discípulos (cfr. Rom.7,3).

Arrepender-se deste pecado não é apenas condoer-se da rutura realizada, que em alguns casos pode ser irreversível, senão rejeitar realmente uma outra união sexual, mesmo sem considerar se ´ou não culpado da rutura com a primeira relação. Se isto não se dá, não há margem para receber a absolvição, porque não se reúnem as condições para isso. Neste sentido, teremos de avaliar adequadamente a circunstância particular em que o matrimónio constitui um “estado de vida”, isto é, se é uma situação permanente que deve ser mudada de algum modo para que se possa reconhecer no pecador a conversão necessária. Sem o compromisso firme e comprovado de, ao menos, não realizar atos de adultério, não se pode absolver o pecador.

Este é um ponto que deve ser tido em conta em qualquer processo penitencial que seja proposto a estas pessoas.

 

 

13. Se a misericórdia é o princípio de toda a pastoral, porquê limitá-la com leis da Igreja?

 

A lei moral é um indicação do mínimo a partir do qual uma ação é sempre má, por isso é um limite no sentido em que ajuda o homem a não desviar-se do caminho de crescimento moral. Pela objetividade própria da lei, fundada no objeto moral que está implicado em ações concretas, indica uma comunicação positiva do bem com alcance universal. Neste sentido, mais que um limite à liberdade, a lei é uma ajuda para que essa mesma liberdade alcance o seu fim autêntico, amar. É neste contexto, pela conexão entre lei, liberdade e amor, que a misericórdia se harmoniza plenamente com a lei moral.

A formulação adequada das leis morais evita a arbitrariedade de quem quer sobrepor a sua vontade aos demais, o que acaba sempre em injustiça. De resto, é muito comum que quem quer sair da s leis de autoridade queira impor as suas próprias leis aos demais. A Igreja ajuda os seus fiéis a discernir o seu caminho moral cm um ensinamento autorizado do que corresponde à leis natural, como uma responsabilidade própria de guiar os cristãos à salvação dada por Deus. A partir dela propõe leis eclesiais com a intenção de especificar como respeitar, nas circunstâncias atuais, os bens morais implicados.

 

 

14. Se a misericórdia consiste em curar as feridas das pessoas, porque não aplica-la aos divorciados?

 

A misericórdia permite-nos como ao Bom Samaritano “ver com o coração”, isto é descobrir as autênticas feridas e untar-nos com o azeite verdadeiro que as pode curar. Nisto a distinguimos de compaixão, que não cura. É essencial então curar as feridas dos divorciados.

A misericórdia permite-nos ver que todo o divórcio é uma ferida, tanto para o que ofende, por romper um compromisso culpavelmente; como para o que é ofendido que sofre essa injustiça.

É falsa a pretendida visão romântica de que se pode “começar do zero” se aprece outro afeto intenso que faça esquecer ou desaparecer todos os afetos anteriores. Quem depois de um divórcio busca uma nova união torna ainda mais profunda a ferida pois pretende tapá-la e com isso torna-a mais difícil de reconhecer.

Por isso mesmo, a misericórdia primeiro obriga a reconhecer que se está ferido. Do ponto de vista pastoral para curar não basta nunca uma mudança na norma, pensando que com isso se soluciona o problema, mas sim uma mudança real no coração capaz de encontrar o sentido profundo dos dons recebidos de Deus.

Na pessoa ofendida, a misericórdia faz perdoar, que é o modo mais divino de reconhecer que existe um vínculo baseado no perdão de Deus que permanece. Na pessoa culpada, a misericórdia cura a sua infidelidade para que possa voltar a sei fiel à Aliança que Deus selou com o seu amor, com as mudanças que sejam precisas para isso.

Toda a cura requer tempo, isso é o que se chama lei da gradualidade já que normalmente é pouco a pouco que a pessoa vai “vendo com o coração” a plenitude da exigência da misericórdia. Isto reclama o acompanhamento de um processo a partir desta medida divina. É o contrário da gradualidade da lei, que sem ter em conta o movimento conversivo da misericórdia, que adaptar a lei a supostas capacidades da pessoa sem contar com a graça, numa pura medida humana.