30 Perguntas-chave sobre os Sínodos da Família

 

18. O que significa dizer que o matrimónio é um sacramento se é algo natural que o homem e a mulher se unam de modo estável com intenção de fundar uma família?

 

19. Como pode o matrimónio pode ser indissolúvel se o amor é algo sujeito a tantas variações? Que significa a indissolubilidade quando “está morto o amor”?

 

20. Diante da separação irreversível, não é desumano obrigar as pessoas a viver sozinhas sem possibilidade de “refazer” a sua vida? Não poderia a autoridade eclesial dissolver o vínculo como faz com religiosas e sacerdotes?

 

21. Porquê negar a comunhão eucarística a um divorciado recasado se este estiver arrependido de ter rompido o seu primeiro matrimónio? Como se pode dizer que a Igreja não discrimina os divorciados que convivem maritalmente se é apenas a estes que nega a comunhão?

 

Acompanhamos durante todo o mês de Setembro a preparação do Sínodo da Família. Propomos a leitura do artigo "30 Perguntas sobre o Sínodo da Família" da autoria de Juan Perez Soba e Stephan Kampowski, publicados no site do Instituto João Paulo II de Madrid no passado mês de Junho. Uma reflexão notável sobre grandes questões que afetam a família cristã. Desafios, lutas, atentados, erros e falsas profecias que colocam a família na mira de uma condenação social e cultural. Ao mesmo tempo, a família continua a ser a instituição mais valorizada, tal como ensina a Igreja. Os cristãos sabem bem o valor inquestionável da família, por isso defendê-la é um propósito que deve animar a todos na oração e na evangelização concreta das múltiplas realidades em que a família se movimenta: escola, trabalho, lazer, cultura; e também das realidade onde se desenvolve e progride: sexualidade, afetos, partilha, convivência, etc.

Na quinta semana de Setembro propomos a reflexão das perguntas subordinadas ao tema "Indissolubilidade do Matrimónio: Justiça e Misericórdia". Os autores deste trabalho, sem medo colocam o dedo na ferida e respondem de forma maravilhosa a estas quatro questões que serão, de certo, as perguntas mais ouvidas neste tempo. Perguntas essas que encontram dor no coração de tantos cristãos - não só daqueles que vivem em situação irregular e dos que são diretamente afetados por isso, filhos e parentes, mas também de toda a comunidade cristã que deseja para eles a misericórdia. É importante relembrar aqui as respostas já dadas sobre misericórdia (perguntas 7 a 11). É urgente que todos os cristãos compreendam o pleno significado do matrimónio enquanto sacramento instituído por Jesus. O matrimónio tal como é sinal de Amor Esponsal, não é uma invenção da igreja, mas um sacramento instituído pelo próprio Filho de Deus. É à luz desta verdade que teremos de saber questionar e responder. 

Leia o artigo completo aqui.

 

 Indissolubilidade do Matrimónio: Justiça e Misericórdia

18. O que significa dizer que o matrimónio é um sacramento

se é algo natural que o homem e a mulher se unam de modo estável com intenção de fundar uma família?

 

Significa que no matrimónio o Plano de Deus sobre o Homem se manifesta de forma especial, na medida em que se revela e realiza mediante o amor humano entre um homem e uma mulher. Este amor manifesta-se a si mesmo no seu valor único, enquanto exclusivo, para sempre e aberto à vida. No homem, descobre uma presença transcendente que supera em muito o mero acordo de vontades. Esta dimensão de transcendência, que corresponde de forma natural ao amor esponsal, está radicalmente aberta a uma revelação mais profunda da presença real do Amor de Deus no amor humano.

O Amor de Deus pelo seu povo foi apresentado pelos profetas como um amor esponsal com vista a uma Nova Aliança definitiva e indestrutível (cfr. P.e. Ez.16). É a Aliança que realizou Jesus Cristo com a entrega do Seu corpo na Cruz para unir-se eucaristicamente à sua Igreja numa “só carne”. É o que os esposos cristãos significam e realizam com a sua própria entrega exclusiva e indissolúvel (cfr. Ef.5,32). Trata-se, portanto, de um dom de Deus que nasce de dentro do amor, que faz os esposos entregarem-se um ao outro e confirma numa nova dimensão o vínculo que o amor natural significa por si mesmo.

Crer na carne de Cristo (cfr. 2Jo.7) exige crer na graça do sacramento do matrimónio como união indissolúvel, é uma expressão da graça e não um problema para o qual é necessário encontrar exceções. Possivelmente, a secularização do matrimónio foi o pior ataque à natureza desta união. Começou com a negação de Lutero do seu significado sacramental e continuou com “a invenção” de um matrimónio civil sem referência alguma à transcendência, o que é algo distinto e contrário ao matrimónio natural.

 

19. Como pode o matrimónio ser indissolúvel se o amor é algo sujeito a tantas variações?

Que significa a indissolubilidade quando “está morto o amor”?

 

O matrimónio é naturalmente indissolúvel, porque o amor esponsal, o que prometem os esposos, está dirigido à pessoa e à sua capacidade de amar e não às suas qualidades que são aquilo que pode variar. Por isso, o “para sempre” desta promessa contém um profundo sentido humano que vai mais além das emoções e dos sentimentos, e que constitui e assegura um vínculo entre os esposos que é, em si mesmo, permanente até à morte.

O amor romântico é o que pode morrer, e de resto morre em tantas ocasiões, mas isso não está relacionado com a permanência do amor conjugal que é sinal da sua verdade. É necessário curar as pessoas da debilidade do amor romântico para que descubram o amor como fonte onde são gerados e regenerados os relacionamentos.

Apesar da enorme força do amor humano na sua abertura à transcendência, compreende-se que, devido à debilidade do pecado, a “dureza do coração” (Mt. 19, 8) podem ocorrer situações em que se torna humanamente impossível continuar a viver a convivência que esse amor implica. É precisamente aí que aparece a força de Cristo, de um “amor crucificado” (Santo Inácio de Antioquia) que no batizado implica que “é Cristo quem vive em mim” (Gal. 2,20), pelo que podemos participar na misericórdia do seu coração que “se somos infiéis, Ele permanece fiel, pois não pode negar-Se a Si mesmo” (2Tim. 2,13). Assim, o que vivemos no batismo permanece para sempre mesmo se somos infiéis; é uma verdade de um dom irrevogável do Amor de Deus para connosco. O Amor de Deus permanece no mistério da sua doação mesmo quando os atos do homem o querem “matar”.

Quando o matrimónio alcança o seu pleno significado sacramental de ser “uma só carne” em Cristo (matrimónio ratificado e consumado) participa de tal modo no dom do Amor de Deus que passa a significar essa Aliança irreversível de Deus, ainda que o homem seja infiel a esse amor. Conta sempre com o dom da graça, que lhe permitirá viver de acordo com as exigências da fidelidade a esse amor, pela promessa de Cristo que é fiel.

 

 

20. Diante da separação irreversível, não é desumano obrigar as pessoas a viver sozinhas sem possibilidade de “refazer” a sua vida?

Não poderia a autoridade eclesial dissolver o vínculo como faz com religiosas e sacerdotes?

“O que Deus uniu não separe o homem” (Mt. 19,6). É uma exigência tão forte que mesmo aos discípulos pareceu excessiva. “Se tal é a situação do homem a respeito da mulher, é melhor não se casar!” (Mt. 19,10). Apenas compreendem a verdade profunda que encerra as palavras de Cristo “os que receberam esse dom”. (Mt. 19,11). O dom da misericórdia divina que cura a dureza de coração para que sejam capazes de viver em Cristo o seu matrimónio.

Isto significa sempre “refazer” a vida, mas a partir da verdade da sua existência, pois “quem desposa uma outra, comete adultério” (Mt. 19,9). Trata-se da “vida escondida com Cristo em Deus” (Col. 3,3), uma vida segundo o dom da graça que participa na fidelidade de Cristo, mesmo diante da infidelidade do homem. É ela que torna possível viver a fidelidade em situações difíceis, também dentro do matrimónio, como o é uma continência prolongada por uma enfermidade.

A proibição de uma nova união, é o testemunho de uma fidelidade nova que apenas Cristo torna possível. Os que permanecem fiéis ao seu vínculo matrimonial neste difícil estado de separação irreversível do seu cônjuge são eminentes testemunhos da verdade do Amor de Deus neste mundo. Necessitam, para isso, de um apoio e reconhecimento da comunidade cristã para que compreendam que Deus não os abandona na solidão.

A Igreja, por tratar-se da verdade de um vínculo sacramental que recebe de Cristo, não tem sobre a indissolubilidade do matrimónio plenamente sacramental outro poder que o de administrar, não pode dissolver “o que Deus uniu”. É possível revogar o que a Igreja recebeu como são os votos religiosos ou as promessas sacramentais que dependem da autoridade eclesial e podem ser revogadas por motivos graves. Não é assim com o sacramento da ordem (do sacerdócio) que permanece para sempre mesmo que o sacerdote seja infiel ao dom recebido e inclusive apóstata ou se perder a fé, será “sacerdote para a eternidade” (Heb. 5,6) e a Igreja não pode nunca tirar-lhe o sacerdócio.

 

21. Porquê negar a comunhão eucarística a um divorciado recasado se este estiver arrependido de ter rompido o seu primeiro matrimónio? Como se pode dizer que a Igreja não discrimina os divorciados que convivem maritalmente se é apenas a estes que nega a comunhão?

A Igreja tem a missão de guardar a boa receção dos sacramentos para que sejam frutíferos. Por isso, tem o dever de negar a comunhão aos que publicamente não estão em disposição adequada para a receber. Isto sucede com os que estão em situação pública irregular como acontece com os divorciados que convivem com outra pessoa distinta do seu cônjuge. A Igreja não pode admiti-los na comunhão enquanto não modifiquem a sua situação objetiva de pecado. Pelo seu significado sacramental existe uma estreita relação entre eucaristia e vínculo matrimonial (sacramentum caritatis, n29).

Não ajuda para nada a um pecador receber a eucaristia no seu estado de afastamento de Deus, pois então como diz S. Paulo “come e bebe a sua própria condenação”. (1Cor 11,29). Esta situação produz um escândalo para as pessoas que veem a incongruência entre permanecer no estado de vida irregular e aproximar-se da comunhão. Existe uma contradição objetiva entre a união sacramental de Cristo esposo e a Igreja esposa que se realiza na eucaristia e a condição de infidelidade do divorciado que convive com outra pessoa.

O arrependimento que se pede ao divorciado em situação irregular é o mesmo que se pede a qualquer penitente: que rejeite não só ao pecado cometido no passado, como também a qualquer pecado que possa cometer no presente, como é a situação de adultério em que vive.

A Igreja não comete nenhuma discriminação ao negar a comunhão a uma pessoa que viva num estado contrário à sua união com Deus. A convivência marital fora do sacramento do matrimónio não é a única situação de pecado em que isto sucede; a Igreja só pode admitir a comunhão a um apóstata se este voltar a proclamar a integridade da fé de forma pública.

Nem por isso, a Igreja abandona o pecador que mostra sinais de arrependimento ainda que não sejam plenos. Quer ser próxima e pode até propor a comunhão espiritual no sentido, não de realizar uma união plena com Deus, que seria impossível sem que existisse o arrependimento, mas de aumentar o desejo de O receber como um caminho penitencial. n