30 Perguntas-chave sobre os Sínodos da Família

Terminamos com este artigo a série "30 perguntas-chave sobre os sínodos da família", publicados originalmente no site do Instituto João Paulo II de Madrid. Com esta série quisemos provocar o questionamento de algumas perguntas que de certo estarão em cima da mesa no próximo sínodo. Tal como afirmam os autores "Os casos relacionados com o casamento e a família são devidos a uma doença profunda que produz muitos males. Tratar apenas um dos seus males com a exclusão dos outros, incorre num risco sério de agravá-los a todos. "

Como cristãos católicos será importante que cada um acompanhe o Sínodo e mantenha a perspectiva de "fazer a vontade do Pai". De facto, é apenas isso que está em causa. Não se trata de descobrir quais são as vontades particulares, mas de dar a conhecer aquela que é a VONTADE DO PAI. A Igreja sabe que tem pela frente um grande trabalho de evangelização dentro da própria Igreja, para que seja conhecido dos católicos de facto esse sacramento concreto que é o matrimónio e sobre o qual Deus criou a família. 

Os Bispos irão falar sobre isto. E nós? Leigos - casados, divorciados, solteiros ou viúvos - será que somos nós capazes de traduzir num quotidiano concreto este sacramento? Esta realidade desejada por Deus? Tal como Deus a desejou? Seremos capazes de reproduzir na família cristã católica a Imagem e Semelhança com que fomos criados?

A Pastoral aplicada em situações concretas será concretamente aplicada por nós, leigos. Por esta razão, somos todos chamados a acompanhar com seriedade este Sínodo e a aprofundarmos o nosso conhecimento e a nossa fé nestes assuntos específicos. 

 

27.  Porque não é permitido aplicar uma pastoral mais benevolente que veja, em casos concretos, motivos suficientes para não aplicar uma lei doutrinal demasiado rigorosa? Não será a rigidez atual um motivo de alienação de muitas pessoas e um contra testemunho cristão? Pode prever-se que muitos se aproximariam da Igreja se esta mudasse a sua disciplina?

Em verdade, a questão da admissão à comunhão dos divorciados que voltaram a casar, não é uma questão de encontrar um meio-termo entre uma pastoral rigorista e uma outra laxista. Trata-se de reconhecer uma questão de justiça devido a razões doutrinais de muito peso, como é a indissolubilidade real e absoluta do matrimónio retificado e consumado. Querer esconder estas razões, é um exemplo daquilo a que Bento XVI chamou: “tentações pseudo-pastorais que situam as questões num plano meramente horizontal, em que o que conta é satisfazer as vontades subjetivas”.

A verdade pode parecer rígida se for entendida de um modo extrínseco aos próprios desejos. A missão curativa da pastoral tem que ver precisamente com estes desejos. Como Jesus Cristo diante da Samaritana (Jo 4, 1-45), a primeira coisa que Ele fez foi despertar nela o desejo do dom de Deus, para, logo em seguida, confrontá-la com a realidade da sua vida, e finalmente mostrar-lhe o caminho de conversão à fé. Este sim, este dom de Deus tem um sentido absoluto que entra em conflito com o ambiente geral de relativismo. Aquele que considera tudo como sendo relativo, considerará qualquer verdade absoluta como prova de rigidez.

A experiência das comunidades cristãs não católicas que incorporaram o relativismo moral na sua prática eclesial, mostra sem dúvida alguma, que esta decisão, longe de atrair as pessoas, fez com que as pessoas se alheassem mais da vida cristã na qual já não encontram nenhuma força especial, nenhuma grandeza humana que a torne atrativa.

Portanto, nunca se deve confundir o “sensus fidelium” dos cristãos no momento de crerem, de que falou Newman e é reconhecido pelo Concílio Vaticano II (LG 25), com uma consulta eletiva sobre as questões morais, que não tem sentido. Nasce sempre de uma valorização de uns mínimos comuns que implica necessariamente um relativismo. Assim o demonstrou claramente Weber com a sua teoria do politeísmo ético. É a vida dos esposos santos a que brilha como testemunho real da vida da fé neste mundo.

 

28. Qual o caminho de conversão que se pode propor aos divorciados que voltaram a casar? Existe alguma proposta positiva?

A misericórdia eclesial para com os divorciados que se voltaram a casar expressa-se na proximidade a estas pessoas para propor-lhes e acompanhá-las num caminho de verdadeira conversão. A intenção desta prática é curá-los de verdade das feridas próprias da sua situação. Isto está a ser realizado em muitos lugares e existe um interesse generalizado por facilitar esta realidade.

Sempre consistirá no reconhecimento num âmbito eclesial e comunitário da verdade da sua situação diante de Deus. Devem reconhecer a possível culpabilidade na rutura, e que foi através da sua própria decisão que eles foram introduzidos na situação de pecado, pois supõe uma infidelidade em relação à promessa anterior. Eles têm de assumir a necessidade de reparar todos os danos daí resultantes, em especial para com os filhos. Devem confessar a permanência do vínculo e a necessária fidelidade para com ele, e a necessidade de viverem na Igreja e do Evangelho para seguirem por este caminho. Trata-se de um processo que é ao mesmo tempo pessoal e comunitário.

A maior dificuldade está em que, na Igreja, apenas se dá atenção a este tipo de situações. Algo de semelhante é muito necessário por exemplo para os matrimónios com problemas e para os separados que querem ser fiéis ao matrimónio, que são questões muito graves e para as quais não é prestada atenção alguma. Em particular, há um abandono quase total dos cônjuges nos primeiros anos do casamento, que é precisamente quando ocorrem mais de 50% das separações. Atender à pastoral dos divorciados que voltaram a casar só é possível se também se atender a muitas mais circunstâncias.

 

29. Não seria um bom testemunho para os filhos, permitir a comunhão dos pais, a título excecional, ainda que estes estejam em situação irregular?

A grande vítima das separações e dos divórcios são os filhos, os quais acima de tudo querem que os seus pais se amem um ao outro, porque este é o maior bem que lhes podem dar. As carências afetivas de que padecem os filhos agravam-se geralmente com o divórcio dos pais ou quando a situação entre eles se torna dificilmente reversível.

Em algum momento os filhos conhecerão a verdadeira situação entre os seus pais. A sua aceitação pelos filhos é algo muito mais complexa do que uma simples admissão à comunhão. Pensar o contrário é mais um exemplo de uma pastoral baseada mais nos desejos subjetivos do que no cumprimento do plano que Deus tem para cada um de nós e na conversão que isto exige. Nós nunca podemos colocar em segundo lugar o testemunho da verdade, que também exige deixar de comungar quando se sabe que não se pode. Caso contrário, os filhos deduziriam que se pode separar a comunhão eucarística da vida que se pratica, o que acabaria por colocar em perigo a sua própria fé, ou torná-la irrelevante.

  

30. Dada a importância de abordar a situação dos divorciados que voltaram a casar, porque não centrar o Sínodo nesta questão?

Tratar de uns doentes excluindo outros nunca é uma boa prática. Isto é ainda pior se, no caso de uma epidemia, formos tratar somente os doentes que têm um surto específico da doença, ignorando que o foco de infeção comum tem muitas manifestações diferentes. Na verdade, o divórcio é apenas uma das muitas dificuldades que resultam da debilidade de um sujeito emocional fraco imerso numa cultura pansexualista.

É uma mentalidade legalista pensar que se alterássemos uma regra e fossemos flexíveis com a situação irregular, o problema desapareceria. Os casos relacionados com o casamento e a família são devidos a uma doença profunda que produz muitos males. Tratar apenas um dos seus males com a exclusão dos outros, incorre num risco sério de agravá-los a todos.

Partimos da constatação de que o grande desafio é cultural, causado pela dissolução do significado do amor conjugal na vida das pessoas. Um passo da Igreja que suponha a aceitação implícita deste facto, seria uma espécie de suicídio cultural que tornaria irrelevante o Evangelho do matrimónio e da família.