A vocação ao amor é a missão de toda a família e esta será também a vocação da pastoral da família. 

Vocação é chamar. E neste âmbito é Deus quem nos chama; nós respondemos. É Deus quem nos chama ao Amor. E nós respondemos na medida em que abrimos o nosso coração. Esta é a relação original: entre o chamado de Deus e a resposta do Homem. Esta relação original é a Centralidade da Vida de todo o Homem. Sem ela, o Homem parece perdido; como diz Santo Agostinho sem ela "o nosso coração andará inquieto".

 

 Cristo é o caminho, a Verdade e a Vida. Cristo é a plenitude da relação original. 

A resposta do Homem só em Cristo, com Cristo e por Cristo se concretiza.

Cristo é o caminho de todo o Amor Humano.

Amar é o que mais necessita o Homem de aprender. A família é o berço onde o Homem aprende a amar. Por isso, se pode dizer, com S. João Paulo II que "o caminho da Igreja é o Homem" e com Bento XVI que "o caminho do Homem é o Amor" e que para todo o Homem o caminho do Amor é o caminho da Família. 

Na família experimentamos quatro relações substanciais que tudo revelam sobre o Amor: i) Filiação; ii) Fraternidade; iii) Esponsalidade; iv) Paternidade/ Maternidade.

i) Ser filho é estar em relação com o pai e a mãe; é a primeira experiência de RECEBIMENTO do amor.

Enquanto filhos aprendemos a receber o amor e a acolher o dom da vida.

Esta não é uma experiência electiva pois não escolhemos ser filhos, assim como não escolhemos sermos homens ou mulheres. Esta experiência impele-nos a aceitar quem somos e a fazê-lo de forma positiva, pois Deus que nos quis desde sempre, nos quer por toda a eternidade.

ii) Ser irmão é estar em relação com o outro que tem a mesma condição que eu; é a primeira experiência de PARTILHA do amor.

Enquanto irmãos aprendemos a dar e a receber o amor. Com os nossos irmãos partilhamos a mesma origem e o mesmo destino. Partilhamos o mesmo dom da vida.

Não escolhemos ser irmão. Este dom recebemos dos nossos pais. E com esta experiência aprendemos a acolher a fraternidade cristã que é fundada na Paternidade Divina.

iii) Ser esposo é estar em relação com alguém que me impulsiona e atrai; esta é a primeira experiência da ENTREGA do amor.

É a única experiência electiva. Nós escolhemos a quem nos entregamos. Esta escolha requer amadurecimento e profundidade intima e afectiva.

iv) Ser pai/mãe é estar em relação com alguém que necessita de mim; esta é a primeira experiência de DOAÇÃO do amor.

Esta experiência revela todas as outras pois através dela o Homem adentra-se na profundidade da experiência do RECEBIMENTO, PARTILHA E ENTREGA DO AMOR.

Quanto mais sou pai mais me torno filho.

Quanto mais sou pai mais me torno irmão.

Quanto mais sou pai mais me adentro na comunhão plena.

 

i) Ser filho coloca-nos diante da questão: QUEM SOU EU?

A esta questão o Homem responde no seio da família. O nosso nome é nos dado pelo pai e mãe. É este nome próprio que nos identifica e distingue de todos os outros. 

Este nome revela que nós pertencemos a alguém. Somos pertença. Somos amados. 

A filiação é uma experiência "fundante" da pessoa. Ser filho é uma vocação e é esta experiência de amor que nos impele a querer ser irmão, ser esposo, ser pai.

No abraço materno somos consolados. No abraço paterno somos encorajados. Neste abraço conjunto vivemos a primeira experiência religiosa do Amor. Nele descobrimos que a nossa memória repousa na memória de outros. A nossa memória - que também se pode dizer a nossa história - é relacional e é Esperança. Esperança que nos incentiva a ir para fora, para dentro e para cima, ao encontro dos outros, de nós próprios e de Deus.

A família é o útero espiritual. A noiva sempre fértil do Apocalipse. 

O amor amadurece a pessoa humana.

 

ii) Ser irmão é descobrir a dimensão grandiosa do Amor. 

O amor dos nossos pais é tão grande que não nos quis só a nós, mas também aos nossos irmãos.

A história bíblica revela que ser irmão não é tarefa fácil.

Ser irmão coloca-nos diante da questão: SOU EU GUARDA DO MEU IRMÃO?

A fraternidade sem referência a um pai comum não tem sustentabilidade. Porque ser irmão significa aprender a compartilhar; a zelar em comum; a procurar o bem comum; e ao Homem lhe custa muito compartilhar.

Mas, é no seio desta relação que o Homem primeiro aprende a noção de bem-comum, descobrindo que na família não somos a soma das partes mas sim o resultado de uma multiplicação. Se nesta multiplicação algum fator for zero, o resultado é zero. Por esta razão, na família todos são chamados a zelar uns pelos outros; a cuidar; a rezar e a amar generosamente.

 

iii) Ser esposo coloca-nos diante da estrutura dual antropológica pois os esposos têm, cada um, diante de si sempre outra forma de vocação ao amor.

Deste "estar diante" surgem as mais estruturantes afirmações da vida. Este Homem que já não apenas se questiona, mas também se afirma. 

Aprendemos isto da própria Bíblia, quando Adão afirma diante de Eva: "Esta é realmente ossos dos meus ossos e carne da minha carne"  e quando a noiva, no Apocalipse, súplica "Vem, Senhor!".

O Amor conjugal é sempre lugar de espanto e súplica; de admiração e aceitação; de rejubilo e acolhimento.

O Homem é chamado ao amor conjugal através da entrega de todo o seu ser - corpo e alma - e a fundar "uma só carne" - uma nova vida, uma nova família.

Esta é a expressão máxima do amor: aquele que é verdadeiramente recíproco e fecundo. Este amor maior apenas na comunhão plena se concretiza. E esta só em Deus acontece. Por essa razão, o Espírito Santo trespassa com especial carinho o amor conjugal, oferecendo aos esposos as graças e bençãos necessárias. Os esposos são convidados por Deus a entregarem plenamente o seu Amor a Deus.

Esta experiência do Amor humano permite um aprofundamento extraordinário na experiência religiosa do Amor.

 

iv) Ser pai/mãe é sempre um desejo de acolhimento. 

Acolhemos abrindo o Amor conjugal à ação do Espírito. Ser pai/mãe é um dom que resulta do dom de si ao dom total e nunca de uma exigência do ser. Um não pode dizer "eu quero ter filhos", pois os filhos não são um preenchimento do vazio. O dom total de mim é que me torna pai.

 

i) Ser filho é poder dizer que o Homem é um ser natal (e não um ser mortal).

Ser filho é ser presente. É estar presente.

Ser filho é aprender a ser grato e obediente.

A obediência e a gratidão são fonte de crescimento para o filho. 

O crescimento impele-nos a explorar o mundo, a atrever-mo-nos e a ter audácia. Esta audácia faz com que o filho não só aprenda a receber, como também aprenda a pedir. Entre o "Por Favor" e o "Muito Obrigado" instauram-se relações de reciprocidade que fundam no ser-humano o seu caminho no Amor.

A virtude de ser filho é a OBEDIÊNCIA.

 

ii) Ser irmão é ser solidário. É aprender que a minha liberdade começa quando começa a liberdade do outro. Sim, ambas começam na mesma origem, no mesmo início. Porque no Amor, um não pode ser livre se o outro não o for também. Por isso, a fraternidade é uma experiência de liberdade comum na vivência concreta do bem comum. E é exatamente aqui que o Homem faz a sua experiência de Perdão.

Aprender a perdoar é fundamental para o crescimento da pessoa. Aprender a pedir perdão é essencial para o amadurecimento da pessoa.

A virtude da fraternidade é o PERDÃO.

 

iii) Ser esposo é dar-se a si mesmo em comunhão plena com aquele alguém que é carne da nossa carne. Aquele alguém com o qual descobrimos a nossa imagem e semelhança a Deus. Aquele único ser a quem nos unimos tão profundamente e tão intimamente que desse encontro brota a fecundidade do amor.

É o Espírito Santo quem edifica os esposos.

A virtude do amor esponsal é a FIDELIDADE.

 

iv) a paternidade e a maternidade são dons que resultam da fecundidade do Amor.

A vocação do Homem é amar. Essa vocação é fecunda. Os filhos que nascem do amor esponsal são a encarnação dessa fecundidade; são a sua expressão mais sublime. Mas, não são a única forma de fecundidade do amor esponsal. São a mais plena porque contém em si mesmo o dom do amor, mas a fecundidade do Espírito Santo não se esgota na geração de filhos. 

O amor esponsal é verdadeiramente fecundo não só nos filhos como em todas as obras do casal - sempre que este se abre à ação do Espírito Santo.

A virtude da paternidade e da maternidade é a FECUNDIDADE.

 

E neste enquadramento Qual é a missão da Pastoral da Família?

A missão da pastoral da família não é resolver os problemas das famílias, mas sim comunicar a esperança e o amor.

A família encerra em si a capacidade de gerar vida, mas trespassa de si como dom para o mundo a capacidade de regenerar o que está ferido. Por esta capacidade as famílias são, como diria S. João Paulo II, Santuários de Vida.

 (Uma reflexão sobre as palavras de Juan de Dios Larrú, nas Jornadas Nacionais da Pastoral da Família, em Fátima a 18 OUT 2014, por Sofia Nascimento Azadinho)